O Hoteleiro e Seu hóspede mais ilustre
Naquela vila, pequena e esquecida entre outras tantas em Judá, contavam que visitantes ilustres haviam passado por ali. Diziam que Rute, a moabita, depois de casar-se com Boaz com quem teve um filho que seria o avô de Davi, morou ali porque podia ver ao longe as colinas de Moabe.
Os habitantes da vila, contavam uns aos outros esta e outras histórias, como a dos valentes de Davi que tiraram água (não muito abundante) de um poço para levar para seu rei, mesmo durante um cerco de filisteus. Contavam que o famoso corredor Asael, estava sepultado em Belém. Davi mesmo teria passado por ali em suas idas e vindas para atender seus irmãos durante as inúmeras guerras contra os filisteus.
O dono da única hospedaria de Belém, orgulhoso, ostentava pequenas relíquias de visitantes ilustres que por ali haviam passado, mas passava a maior parte de seu tempo sentado, relembrando.
Ele foi tomado de um entusiasmo frenético quando o edito real obrigou o alistamento de todo o império. Comandou a esposa e os filhos numa faxina em todos os quartos da hospedaria. Pediu dinheiro emprestado para abastecer-se de pão, passas e vinho. Comprou até queijo.
E ficou olhando a estrada, com as mãos nas costas, esperando os que viriam alistar-se em sua cidade natal, e ficariam hospedados em sua hospedaria.
O primeiro a chegar foi um homem velho, com um olhar meio distante. Comeu sozinho, num canto, murmurando palavras ininteligíveis. Quando o hoteleiro veio para tirar os copos, e dar a entender ao hóspede que já era hora de retirar-se, foi pego de surpresa, quando as mãos frias do visitante agarraram seu braço. E o homem sibilou: E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel.... Apavorado, o hoteleiro se desvencilhou do estranho hóspede, mandou-o lamber sabão, chamou os empregados e mandou que o atirassem na rua
Mas ficou pensando em suas palavras. E, se, o que o homem disse acontecesse. Se por um golpe de sorte, ou do destino, ele recebesse um rei. Então, sim, sua hospedaria e até a própria vila entrariam para a história novamente. Ele poderia ficar rico.
Pensando com seus botões, o hoteleiro decidiu não deixar tudo ao acaso. Chamou a esposa e os filhos e deu ordens que preparassem o melhor aposento da casa.
Por que? Perguntaram?
Porque vamos receber um rei. Eu ouvi um oráculo daquele pobre homem que atiramos na rua. E decidi que vou acreditar no que ele disse. Mas isso só acontecerá se formos espertos, e se ficarmos atentos. Ficaremos ricos.
Chamou os filhos e lhes disse que ficassem por perto onde se fazia o alistamento, para ver as pessoas de boa aparência e que as trouxessem para a hospedaria, custasse o que custasse. E que o quarto reservado, seria para o visitante mais ilustre que encontrassem. Que insistissem para que viesse se hospedar ali.
E todos fizeram o que o dono da casa mandou. Ficaram a postos, avaliando as pessoas pela aparência, pela montaria, pelo número de empregados e pela comitiva que os acompanhava. E, conseguiram encher a hospedaria com essas pessoas. Mas ainda não havia ninguém no quarto preparado.
Um dos filhos do hoteleiro, o caçula, não estava convencido da estratégia do pai. O homem que fora expulso da hospedaria e jogado na rua, continuava sua ladainha de “E, tu Belém Efrata...!”. Seus olhos pareciam mais fora de foco ainda do que no primeiro dia. Sem comer, e sem dormir, andava desvairado repetindo as mesmas palavras....
O filho caçula ofereceu-lhe água e pão, as escondidas do pai. E perguntou-lhe: Moço, do que o senhor está falando? Meu pai disse que estamos esperando um visitante ilustre e o senhor fala de um rei, isso é verdade?
O homem aproximou-se do menino e disse: “Você meu filho, é o único que encontrei nessa cidade até agora que tem um coração-Belém!” E começou a rir.
É verdade! É claro que é verdade! Você menino, Belém, você verá! Você Verá!
E com essas palavras o homem se foi para outra cidade.
No dia seguinte, no auge do alistamento, a cidade estava cheia. Havia pessoas por todos os lados. As famílias recebiam seus parentes distantes, festejavam a oportunidade de se verem depois de muitos anos. Embora estivesse frio, acomodavam-se como podiam em todos os cômodos de suas pequenas casas.
Na hospedaria, o hoteleiro chamou os filhos e lhes disse que agora precisavam trazer um hóspede para o quarto preparado, e já não haveria mais lugar.
Os meninos e os empregados foram para o lugar do alistamento e ficaram observando. O mais velho, acompanhava os visitantes, escolhendo muito bem de quem se aproximaria para oferecer o quarto preparado na hospedaria.
Um visitante ilustre, dissera o pai. E ele não falharia. Queria a aprovação do pai. Assim que viu um homem bem vestido, com anéis nos dedos, aproximou-se dele:
- Precisa de um quarto, senhor? Meu pai pode lhe oferecer o melhor da cidade em nossa hospedaria. O homem voltou-se para conversar com o menino, e nesse momento quase atropelou uma jovem grávida, que estava atrás dele na fila. A moça estava pálida de cansaço, e parecia que lhe faltava bem pouco para dar á luz. O marido já estava dando os nomes para o alistamento.
O homem rico olhou com desdém para a jovem grávida, mas resolveu primeiro cuidar de garantir um quarto para si. Ele estava quebrado, vivendo de ostentação e de mentiras, mas ninguém sabia disso em Belém.
O filho do hoteleiro o conduziu para a hospedaria, e ele foi recebido com presteza pela família. Serviram-lhe a melhor comida, vinho, e o hoteleiro exigiu da família que o tratassem com todas honrarias que podia proporcionar.
Na mesma noite, mais tarde, chegou o homem com a esposa grávida. Pediu um quarto. Impaciente, o hospedeiro o despediu dizendo que não havia mais lugar, nem comida, e que não tinha tempo para se ocupar de pessoas tão comuns, e que tinha um hóspede ilustre para cuidar.
O filho caçula saiu novamente as escondidas, e levou o homem e a grávida para a estrebaria.
Aquela foi uma noite estranha em Belém. Na hospedaria, o hospedeiro passou a noite em claro. O hóspede rico se tornou exigente e mal-educado. Comeu, bebeu, atirou-se na cama e dormiu roncando e incomodando a todos. Pela manha bem cedo, acordou aos berros exigindo água para banhar-se.
Pessoas estavam nas ruas de Belém comentando o que havia acontecido durante a noite nos campos. Anjos haviam aparecido e anunciado aos pastores que havia nascido um rei. E que encontrariam o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.
Alguns diziam que havia uma estrela que brilhou a noite toda sobre a hospedaria.
O hoteleiro, cansado, com os olhos vermelhos da noite mal dormida, irritado, chamou a mulher e os filhos, para que não ficassem ouvindo conversas tolas logo pela manhã.
Quando entraram na hospedaria, perceberam o silêncio. Finalmente o hospede ilustre se acalmara. De repente, um criado veio, e anunciou ao hospedeiro que enquanto eles conversavam, o hospede havia desaparecido pela porta dos fundos sem pagar a conta.
Desalentado, o hospedeiro colocou o rosto entre as mãos. Cercado pela mulher e os filhos que tentavam consolá-lo, percebeu que faltava o caçula.
Onde está esse menino?
Estou aqui, pai!
Onde você estava, menino?
Espiando o rei, pai!
Que rei, menino? Não tinha rei nenhum. O hóspede ilustre era um charlatão, deixou a maior bagunça no quarto e saiu sem pagar a conta! Fomos enganados!
Não era ele, pai! Era o rei bebê, que nasceu na estrebaria!
O que?
Sim, pai.... a estrela estava no céu, bem acima da hospedaria! A moça grávida, deu á luz um bebê! Os pastores vieram, trouxeram presentes.... eu fiquei lá espiando.... e toquei uma música para ele.... no meu tambor!
O hospedeiro levantou-se devagar... perguntou ao filho e onde eles estão agora? Cadê o rei bebê?
E o filho respondeu:
Eles já foram.... o pai disse que precisavam ir, que um rei mau queria matar o bebê.... então ele tomou a esposa, e o bebê e partiram assim que amanheceu o dia!
E o hoteleiro, e esposa e filho mais velho, começaram a chorar.....
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