sábado, 16 de setembro de 2017

Cronicas de Richardson Springs -I

Crônicas de Richardson Springs
Minha única realidade


            Ainda sob os efeitos do estresse das últimas semanas, acordei na madruga escura do vale de Richardson Springs como se tivesse levado um choque. Tem sido assim há vários dias, senão semanas. Sinto-me como se estivesse tocando um fio descascado com o pé descalço. Uma sensação de susto, o coração bate forte e descompassado; a boca seca, e sinto a absurda necessidade de me levantar e correr.
            Correr por que? Para onde? De que? Do outro lado da cama, o tranquilo ressonar de Roland me lembra que uma parte, talvez ainda não necessariamente, a pior, já passou. Estamos em Chico, e eu simplesmente acordei as quatro da manhã. Tentar dormir novamente é impossível, dada a quantidade de adrenalina correndo no meu corpo. Melhor me levantar, fazer um café e orar, meditar, ler a Bíblia, ou simplesmente esperar que passe.
            Aos poucos, meu coração volta a bater normalmente, mas já estou de pé, caminhando no escuro, me esforçando para ver os contornos da cama, das portas, e achar o banheiro, a cozinha, sem despertar o tranquilo sono do meu marido.
            Vou ao banheiro, e a sensação da água fria no rosto é agradável e calmante. Meus olhos ainda estão inchados especialmente o lado direito, onde, desde pequena, coloco a mão dobrada para dormir. Se tem alguma parte ingênua em mim ainda, é isso. Dormir como uma criança. Não no sono tranquilo, seguro, mas na posição.
            Tateando os objetos na mesinha de cabeceira, encontro meus óculos, a Bíblia, o ipad, as canetas e as folhas de papel. Péssima compra, aliás, porque agora tenho folhas esparsas, rabiscadas aqui e ali.
            Na cozinha, vejo a louça de ontem dentro da pia, e lavo tudo rapidamente. Coloco a água na cafeteira, o pó e fico esperando uns minutos, o cheiro agradável do café. Esse cheirinho gostoso de café fresco, faz de qualquer lugar minha casa, de qualquer cozinha meu lar. Mais tranquila, agora, começo a relaxar, estou em casa.
Estou segura, na comunidade da Jocum, mesmo que minha família, amigos e parentes estejam a horas/milhas de distância, lá no Brasil. Os filhos, Markus, Adrian, Thomas, noras, Kátia, Lídia, e alguma outra que Deus esteja preparando para o Adrian. E meus netos, João, Lilian, Alberto e Lucca.
Enquanto saboreio meu café, penso na reunião de ontem, na ênfase sobre nosso chamado principal – ministrar a Jesus. É a Ele que clamo agora. Levanto meu pensamento, minha oração, e sei, que no silêncio da madrugada ele ouve o clamor de meu coração.
Jesus sabe o que é uma angústia, um coração apertado, porque Ele passou por isso também. Sei que ele ouve. Sei que ele sabe. Sei que Ele vê.
Começo meu tempo quieto, abrindo a Bíblia, descobrindo os versículos que fazem parte da leitura diária. Quem como Davi para expressar o coração humano diante de Deus? Quem como o pastor salmista para dizer exatamente as emoções que se encapelam como ondas bravias do mar, no peito, na mente, e criam uma reação física difícil de controlar?
 As perguntas do inconsciente que interromperam meu sono, que colocaram meu coração no descompasso e o corpo em alerta, vão se distanciando na quietude e na paz que a Palavra de Deus me traz. Jesus falando com os que haviam crido nele – não com incrédulos, mas com os que creram, diz: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
Com os olhos fechados, o cheiro e o gosto do café permeando meus sentidos e me ligando á realidade presente, eu volto á minha infância. Com meus sete anos, acabei de aprender a ler. Estou sentada no banco duro da igreja Assembleia de Deus, a famosa, que tem um relógio, em São Paulo, perto do museu do Ipiranga. Acabei de acordar, com uma cotovelada da minha mãe. Estou assustada e esqueci onde estava. E vejo de novo as mesmas palavras que tentei soletrar antes de cochilar, e que agora me vem, com mais facilidade: E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
Naquela época, eu só sabia que a verdade era a Bíblia. Um livro enorme, desenhado na parede atrás do púlpito. E o versículo escrito num arco acima do livro. E por alguma razão, aquilo me dava uma paz inexplicável, e eu cochilava novamente, para levar outra cotovelada.
Agora, tenho minha própria Bíblia, aberta na mesa da cozinha, ao lado do vaso com flores brancas dos pés de algodão, atenciosamente colhidas e deixadas como boas vindas pelo pessoal da hospitalidade da Jocum Chico.
Mas tenho também uma revelação sobre a verdade. É uma pessoa! Jesus é a verdade que me traz a paz que necessito e que busco enquanto a luz da manhã vai chegando, e trazendo um azul menos denso para o céu sobre o vale de Richardson Springs.
Ele que é a Estrela da Manhã, a luz da alva que brilha em meu coração, e me mostra que é Ele quem instrui, ensina e guia a cada passo do caminho.
Desde pequena, entendi e escolhi o caminho da verdade. Posso ficar insegura, coisas acontecem que são incompreensíveis e incompatíveis com as promessas de Deus, e que não estão de acordo com os propósitos dele. Mas ele não muda. Seu propósito permanece imutável, assim como ele é.
Quero descansar como uma criança novamente, à sombra dessa compreensão sobre a fidelidade e imutabilidade de Deus.
Assim como aprendi a ler, a soletrar cada letra, desejo ainda a revelação da verdade, da pessoa Dele. Como diz a canção: “Cada dia, me ensinas a confiar em Ti, por Tua Palavra. Minha fé aumenta mais, a cada manhã.”
Não importa como desperte. Como criança assustada, apanhada num cochilo no banco da igreja, ou a mulher eletrizada na madrugada,  depois de eventos estressantes com finanças, família, problemas de relacionamento, decisões difíceis que foram tomadas, certas ou erradas,  a consciência que vem em seguida é permanecer na verdade.
Que a verdade seja minha realidade no meio da noite ou do dia. No entardecer da vida, ou no amanhecer de um novo dia, uma nova estação, um novo tempo para nós como indivíduos, ou como família da Jocum, em Richardson Springs.


           



            

4 comentários:

  1. A história em Richardson Springs...
    Esse tal Richardson do texto e do lugar. Me ver nas palavras do outro quando se fala de interioridades. O que se extrai é de fato a dependência dessa absoluta verdade: permanecer nEle. Quem venham os próximos nascimentos do sol e também os fechamentos do dia e madrugadas. Ele permanece.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. E eu aqui com medo de dormir e ser supreendida por algum choro ou febre no meio da noite. Dias de lutas por aqui porém, vem esse texto e me faz lembrar da essência. Respiro a graça. Aprendendo a me deleitar na imutabilidade de Deus.

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  4. Ao ler parece que ouvia você falando... Que saudade de te ouvir...
    Obrigada por mesmo de longe, me ispirar a permanecer firme na verdade...
    Amo vcs!

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